segunda-feira, 20 de julho de 2009

Conversas de Bar - Fogo e Gota D'água

Eu queria agora contar a história de quando entrei naquele bar, com ares de pub londrino, com vozes altas e uma densa cortina de fumaça. Fui ao banheiro e na volta sentei em um banco e recostei no balcão.

- Um chopp!

Disse eu ao simpático garçon. Quando me preparava para tomar o primeiro gole, você entrou, com aquele ar de pressa habitual. Conclui o gole meio rindo, você apertava os olhos para me procurar, eu me diverti por alguns instantes antes de levantar a mão e assim acusar a minha presença.

Você se aproximou e me obrigou a descer do banco pra te abraçar, gesto que me deixou muito mais baixa. Você se curvou no abraço, me deu os costumeiros três beijos, entre o ombro e o pescoço, me olhou, puxou um banco pra perto e se sentou:

- E aí? Tudo bem?
- Tudo. E contigo?
- Bem também. Como foi a peça?
- Ah! Foi linda, visceral como sempre...
- Qual era mesmo?
- Gota D'água... aquela do Chico.
- Bacana... - Disse estendendo a mão pedindo sua cerveja ao garçon.
- Foi um pouco mais que bacana. Tive vontade de ser atriz só para interpretar Joana.

Ele deu um sorriso com ternura, odeio quando ele sorri assim, parece que está me achando uma boba sonhadora, que não sabe do que fala. Ah se ele conhecesse o texto, ele ia entender.

A 'Gota d'água' é um texto lindo. Joana é a mulher que ama, ama até o fim. Odeia e amaldiçoa Jasão, jura vingança, chora, mata e morre por amor, no morro, no samba. Dá vontade de ser forte e de sentimento como Joana. Não com perversidades e loucuras, mas é sentir e falar mesmo, por mais louco que seja, sempre acho amor bonito, mesmo na tristeza, ou principalmente nela.

Diante do tal sorriso dei de ombros, me virei para o balcão e continuei a beber meu chopp.

- Tem fogo?- Ele perguntou com o cigarro no dedo.- é que eu tô sem.
- Que você tá sem, eu sei... - disse eu baixinho pro meu copo.
- Tem?
- Não. Parei de fumar.
- Até quando? - Disse ele em ar de deboche.
- Até... ah! Não sei.- Não tinha porque responder aquilo.
- Bem vou ali tentar acender.

Aí ele levantou, então uma senhora ao meu lado disse:

-"eu era feliz, Jasão, feliz e iludida, porque o que eu não imaginava, quando fiz dos meus dez anos a mais uma sobrevida pra completar a vida que você não tinha, é que estava esperdiçando o meu alento, estava vestindo um boneco de farinha"

Era um trecho da peça e era ela, a Joana do palco. Tinha nos lábios agora um sorriso melancólico:

- Gosta da Joana? - Ela perguntou.
- Adoro! Nossa, e você esteve fantástica.
- Obrigada. É maravilhoso ser uma mulher como Joana, deixá-la se apossar do corpo, sentir toda aquela dor, aquela raiva, aquele amor... Aí a cortina fecha.- Ela tinha o olhar fixo, como se estivesse vendo naquele instante a cortina se fechar.
- Deve ser maravilhoso, deixar tudo lá...- Disse eu extasiada com aquele momento.
- É outra vida, lá não tem escolha, tem seus personagens e não tem como fugir deles. Joana, lá não tem escapatória. Na vida a gente escolhe os personagens, se eu fosse você, ia preferir ser joana na vida.- Ela olhou pro copo de whisky, virou o último gole, esbarrou no meu braço de leve e falou.- Deixa bater o pé de vento no boneco de farinha.

Ela finalizou com um sorriso de canto de boca, deu uma piscadinha, me passou um isqueiro e foi embora. Nesse momento ele voltou com uma cigarro ainda apagado.

- Maldita geração saúde! - aí ele viu o isqueiro em minhas mãos.- Você disse que não tinha fogo.
- É, descobri que eu tenho.- Ele estendeu a mão, e enquanto ele acendia o cigarro, coloquei no balcão o dinheiro do chopp. Eu então peguei o isqueiro da mão dele.

- Mas não vou mais dar ele pra você...

4 comentários:

Maria Lia disse...

Eu chego a me sentir no Cosa, observando tudo isso acontecer, do banco da "esquina" do balcão.
Bem no estilo bebedora-solitária-perdida-na-história-de-desconhecidos.

Ótimo texto. =)

Tamires Ataíde de Freitas disse...

É, o texto tá maravilhoso. As vezes, vemos as personagens de peças, de livros.. e queremos ser como elas, fortes e guerreiras. Mas todas podemos ser assim, basta confiar em nós mesmas.

Donana disse...

Mui mui envolvente ... e parece filme, virou teia na minha cabeça, muito bom, flor! Bonita prosa assim tão poética. E eu sempre por aqui ... Bjs!

Diva disse...

Adorei esse! =)